Natal: suas origens pagãs (em várias partes do mundo)

Natal: suas origens pagãs (em várias partes do mundo)

dezembro 24, 2020 0 Por Pagan

O mundo não começou há 2 mil anos. Nem há 3 mil. Povos antigos, hoje chamados de pré-cristãos, viviam de maneira muito diferente em relação a hoje. Eles observavam os ciclos da Natureza, conversavam com seus ancestrais e Divindades. Assim, surgiram as festividades e calendários em diferentes partes do mundo. Essas tradições são, desde o início, tão fortes, que nem mesmo um poder religioso centralizado conseguiu apagá-las da história. Na verdade, esse poder tentou reescrever a história e precisou incluir, nas festividades que já existiam, o seu próprio calendário.

Na Roma antiga, os politeístas celebravam a Saturnália (dedicada ao Deus Saturno) todo dia 17 de dezembro no calendário Juliano, e depois estendida até 23 de dezembro. Havia troca de presentes, banquete público, festas que faziam temporariamente serem esquecidas as normas sociais da época (com escravos sendo servidos pelos seus senhores) e jogos de apostas eram tolerados no período. No século IV d.c., o papa Júlio I (337–352) determinou que o nascimento daquele considerado como “salvador’ deveria ser comemorado em 25 de dezembro (mesma época das celebrações da Saturnália).

Saturnalia, por Antoine Callet
Saturnalia, por Antoine Callet

Alguns acadêmicos reconheceram que a data foi escolhida propositadamente para substituir a Saturnália. Outro fato é que, antes disso, no ano 274 d.c., o imperador romano Aureliano estabeleceu o 25 de dezembro como dia de festividades em homenagem ao Deus Sol Invicto (“Sol Invictus”, patrono dos soldados e considerado como o “Deus Sol oficial do último império romano). Uma possível explicação para a escolha do 25 de dezembro é que o papa Júlio I pode ter pensado que seria mais fácil atrair mais convertidos ao cristianismo, permitindo que continuassem a comemorar no mesmo dia.

Raciocínio semelhante ocorre quando lembramos que, no hemisfério norte, dentro do calendário romano, 25 de dezembro era o solstício de inverno (o dia, no sentido de período de luz do sol, de menor duração do ano). A escolha dessa data como nascimento é explicada dentro do próprio cristianismo pelo santo agostinho, em um sermão do final do século IV: “Portanto, é que Ele nasceu no dia que é o mais curto em nosso acerto de contas terrestre e a partir do qual os dias subsequentes começam a aumentar em comprimento Ele, portanto, que se abaixou e nos levantou escolheu o dia mais curto, mas aquele de onde a luz começa a aumentar”. O natal também não aparece nas listas de festivais registradas pelos primeiros escritores cristãos Irineu e Tertuliano.

Celtas

Os Celtas originalmente não comemoravam solstícios e equinócios. Porém em suas terras sempre houve monumentos de pedra (anteriores aos celtas) que marcavam o nascer do sol e pôr do sol desses dias. Assim, nas terras celtas eventualmente surgiram os próprios rituais de solstício de inverno, chamados na Escócia de “Nollaig”, aparentemente do latim natalis (“Nascimento”). A ligação do “Nollaig” com o solstício de inverno (e não com qualquer nascimento de messias) pode ser vista no fato de que, em algumas regiões, a festividade é comemorada em 31 de dezembro. Em outros locais, era comemorado na semana inteira de 24 a 31.

Na Escócia, procissões de jovens costumavam andar de casa a casa, recitando rimas sem sentido, cujas palavras se referiam a figuras heroicas celtas. Chefes de família recompensavam os cantores com comida e bebidas, com o clímax das festividades sendo o “Hogmany” ou dia de ano novo. Na Irlanda, meninos capturavam carriças, aves pequenas famosas pelo canto e que eram levadas pelas aldeias para espalharem seus cantos e trazer suntuosidade à festividade. Também na tradição irlandesa, se alguém morresse durante esse período, era um sinal de ser abençoado.

Germânicos e Nórdicos

Vários símbolos hoje considerados como “natalinos” são, na verdade, de origem pré-cristã dentro das festividades do Yule. Além da própria árvore de natal, outros símbolos são a sobremesa “Yule Log” (“Tora de Yule”, em tradução livre), tradicionalmente conhecida na Bélgica, França, Suíça, Canadá, Líbano e várias ex-colônias francesas, além do Reino Unido e da Espanha. Feita de pão de ló para se parecer com uma tora de madeira em miniatura, é uma forma de doce rocambole.

Yule Log
Yule Log

A Yule Goat (“Cabra Yule” em tradução livre) é tradicional da Escandinávia e remonta ao Yule, e já existiu em muitas variantes durante a história escandinava. As representações modernas da Cabra Yule são tipicamente feitas de palha e podem ser encontradas nas árvores de natal na Escandinávia.

Yule Goat
Yule Goat

O conhecido “presunto de natal” tem como origem o Javali de Yule, que por sua vez tem ligação com o javali Gullinbursti e o Deus da fertilidade, Freyr. Na véspera de Yule, a tradição era as pessoas colocarem as mãos nas cerdas de um javali, dedicado a Freyr. O ato de comer o javali era visto como a absorção de parte do poder do Deus (gesto que o cristianismo também pratica nas missas, com as hóstias e o vinho).

Deus Freyr. Crédito - https://www.deviantart.com/natasailincic/art/Frey-500232416
Deus Freyr. Crédito – https://www.deviantart.com/natasailincic/art/Frey-500232416

Nota pessoal: Yule, Nollaig, Saturnália ou natal. Seja qual sentido que cada pessoa dê a esse período, é importante conhecer as origens que nos levaram a viver como estamos hoje.

Imagem de abertura: “Gullinbursti and Frey” (1901) por Johannes Gehrts.

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